Diante da curiosidade e da dúvida, encontrei o motivo para tanta preocupação. Seu filho permanecia sobre os galhos do pingo-de-ouro, planta que forma um muro vivo nos fundos de casa. Ele, capaz de voar tão alto, estava ali, perto de todos os perigos, inclusive da astúcia de uma gata.
A luta, travada diante dos ensinamentos de um voo, não cessou. Se prolongou durante o fim do dia, da noite e do outro dia. Em casa já estávamos acostumados com o barulho, com o aprendizado e com a parceria. Todos os olhos, porém, estavam sempre atentos para qualquer investida da Missinha, bichana pra lá de caçadora.
E foi na sexta-feira, que a mamãe pássaro também apareceu na cena. Já em outro telhado, vigiavam o menino, recém saído do ninho. Agora, o jovem já havia voado mais longe. Assim, repousava sobre os galhos de um pequeno coqueiro, instalado num jardim próximo à piscina.
Ao mesmo tempo em que deslumbravam o céu, cheio de nuvens e de mistérios, o casal não tirava os olhos da cria. Quem dera poder ajudar, quem dera conseguir levar o filho nas asas, para o resto de suas vidas. Ah, mas quando é chegada a hora, voos precisam ser conquistados. É a liberdade gritando, a vida adulta iniciando sua corrida.
***
No domingo, dia tenebroso, macabro, a luta não continuou. De forma estranha o silêncio se fez. Papai, mamãe e filho pássaro não foram mais avistados.
No vizinho, na antena instalada no alto do telhado laranja, outra dupla chamou a atenção. Um pequeno passarinho preto seguia um sabiá. Eles não eram da mesma família, era evidente. Também não eram aqueles com os quais minha família se acostumara nos últimos dias. Formavam uma nova família, diferente, engraçada, iluminada.
Daqueles que alçaram voo, ou sumiram pelos céus, ficou a lembrança de um dia singular, cinza, sombrio e cheio de incertezas. Daqueles que se foram, ficaram outros pássaros. Únicos, perdidos, solitários, mas iguais e irmãos da mesma dor.
Foto: minha autoria
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