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quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Além da tela

Acho muito legal quando as pessoas compartilham fotos de suas experiências em viagens e pequenos passeios. Adoro demais conhecer, mesmo que pela rede, novos lugares, comidas, parques.
A cada amigo que vai descobrir algo novo, minha lista de lugares para visitar cresce. Sou apaixonada pelo compartilhamento de bons momentos. Confesso, faço isso também, quando posso. Mas acredito que, como tudo na vida, há um limite.
Aproveitem mais a oportunidade. Sintam tudo o que ela tem a oferecer. Realmente experimentem. Postem uma ou duas imagens por dia, quem sabe. Mas parem, parem mesmo, de postar fotos a cada 5 minutos.
Quem é que dispõe a atravessar cidades, estados, países e oceanos para ficar ligado o tempo todo no Whatsapp, Face, Twiiter ou seja lá o que for? A menos que seja uma cobertura jornalística, ou que seja uma proposta diferente, não vejo motivos para tal.
Uma das coisas que mais achei legal no cruzeiro que fiz recentemente, foi o fato de estar distante da internet na maior parte do tempo. O pacote para utilizá-la era realmente caro (e ainda em dólar) e eu, com certeza, não estava disposta a pagar por isso. Ainda bem! Afinal, o tempo passa rápido e não volta mais.
Fica o conselho: quando voltar para casa, e estiver entediado (ou não), com saudades, morrendo de vontade de voltar, faça álbuns, escreva sobre, deixe comentários nas páginas dos lugares que visitou ou em blogs. Aí, sim, publique quantas fotos quiser. Terá muito tempo para postar sobre aquilo que viu pelo mundo afora. E o melhor: tudo isso com gostinho de lembrança.
A minha foto de hoje foi feita em 2014, no Aquarium, em Cape Town, na África do Sul, cidade na qual gostaria de estar até hoje, reconheço.
(Ps.: antes que digam "ah, mas ela posta/postava tudo", digo que sempre escrevo por experiência própria. Estou reaprendendo e reavaliando minha relação com a internet. O texto é apenas uma dica de quem já viu muita coisa passar na tela da câmera ou do celular e esqueceu de olhar com os próprios olhos)

quarta-feira, 10 de junho de 2015

O príncipe

Quando finalmente chegamos a Cape Town, após uma hora de viagem, deixamos as malas em nossas respectivas casas. Dessa vez, ao chegar no meu apê, convidei o Zaid a conhecê-lo. Apesar dos três meses que estivemos juntos, ele nunca havia visto o local com os próprios olhos.

Jamais esquecerei da expressão que o fotógrafo fez quando viu meu recanto. Não era um lugar sujo, nem precário. Apenas era um sótão, pequeno, bagunçado e compartilhado com outra pessoa. Acredito, eu, que nesse momento ele teve vergonha por dizer, inúmeras vezes, que eu parecia triste o tempo todo. Afinal, isso foi algo que só percebi quando cheguei ao fim da minha viagem. A maioria daqueles que diziam para eu ser forte não teria aguentado nem a metade do que passei. Aí eu entendi o quão forte e corajosa eu era.

As malas passaram a descansar no prédio e partimos para o último passeio. O destino, é claro, poderia ser de minha escolha. Propus, então, uma visita à primeira praia que visitamos juntos. Passamos pela luxuosa Camps Bay e, dez minutos mais tarde, chegamos ao destino.

Eu não estava com roupas praianas. Vestia minhas botas pretas de couro, que doei à doméstica da família do Zaid, naquele mesmo dia. Nos acomodamos na areia, sobre uma manta que havia trazido do Brasil. Lá, naquela segunda-feira, assistimos às aulas de surfe, ministradas pelo professor de uma escola local. O meu parceiro, então, me contou mais detalhes de sua vida escolar, da vida boa que sempre levou. No último dia (sim, no ÚLTIMO), conversamos mais do que em todo o tempo que estivemos juntos.

Quando a fome apertou, decidimos seguir até o Water Front. O Zaid queria me levar a um restaurante que ele gostava demais e que, de acordo com ele, servia o melhor hamburger de Cape Town. Chegamos ao local e fizemos os pedidos. A minha dupla, no entanto, pediu licença e saiu. O tempo passou, o pedido chegou, e o Zaid ainda não havia retornado. Eu louca para atacar o prato, mas não queria iniciar a refeição sem a sua companhia.

Minutos depois ele voltou. Um tanto desajeitado, me entregou uma sacola. Dentro, um presente. Apesar de já ter me presenteado tanto, com momentos, Zaid quis materializar e eternizar aquele momento. No pacote estava uma linda pelúcia. Melhor, um lindo leopardo, mais tarde chamado de Prince. Um dos melhores presentes que já ganhei, de verdade. Passada a emoção do instante, voltamos a nos deliciar no restaurante.

Continua...

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Pensando alto

Naquele dia o Zaid estava especialmente interessado em me agradar. Por isso, fez tudo o que eu desejava. Me levou a lugares que nem ele, acredito eu, sabia que existia. Exemplo disso foi uma loja especializada em materiais para a produção de bijouterias, na saída de Langebaan.

Ele simplesmente estacionou o carro por lá e decidiu que seria interessante gastarmos alguns minutos entre aquelas prateleiras. Como em muitos momentos, ele não estava errado. Foi lá que acabei comprando uma porção de quinquilharias, entre elas o mapa da África, que pude personalizar, e que até hoje estampa o mural pendurado na parede lilás do meu quarto.


Depois daquela parada ainda visitamos uma pequena feira de artesanato, onde homens aparentemente humildes tentavam ganhar a vida. De lá, seguimos a uma colônia de férias. Sob a luz do sol, diante da praia, sentada no muro branco, ouvi dizer que aquele havia sido o cenário de inúmeras férias do Zaid e de sua família. No fundo eu sabia que visitar aquele lugar poderia render lembranças distintas a ele, apesar de não parecer se importar. Um dia, em um texto, explico o motivo.

Além de apresentar o conjunto de apartamentos brancos, de aberturas coloridas, Zaid me levou ao cassino, instalado no mesmo condomínio. Apenas nós dois nos divertimos naquele dia, entre as máquinas de jogos. Ou melhor, ele. Essas casas de jogos não me agradam muito, mas eu não poderia deixar de parecer entusiasmada.

A cada jogo, Zaid ganhava pontos que, mais tarde, poderiam ser trocados por pequenos prêmios. Um deles, por sinal, foi o anel que ainda veste meu dedo médio da mão direita. Foi o melhor presente mais barato que já ganhei de um homem. E, disparado, o mais bonito e sincero.
 
Ao sair dali, ganhamos a estrada. A partir de então todos os quilômetros representavam o retorno a Cape Town e, também, ao Brasil. As rodas trilhavam o asfalto e nossas mentes viajavam muito mais. Meu coração, ao mesmo tempo que pulava de alegria, por voltar para casa, sentia um aperto diferente, uma sensação inexplicável. E as músicas no rádio não nos perdoavam. Ed Sheeran, ao cantar Thinking Out Loud, fez com que segurássemos as lágrimas diversas vezes.

Continua.


sexta-feira, 5 de junho de 2015

A pousada

Havíamos passado a noite em uma pequena pousada da grandiosa Langebann. Grande pela natureza maravilhosa, esplêndida, mas pequena se comparada a Cape Town. O local escolhido para pernoitar era aconchegante demais. Daquele tipo que não se quer deixar.
O quarto tinha uma parede cor de laranja, que eu adoro, e trazia um pensamento: “be so happy that when others look at you they become happy too” (seja tão feliz que, quando outros olharem para você, vão ficar felizes também). E eu estava. Desejei, por vários instantes, que aquele momento jamais se acabasse. Engraçado, mas acho que já disse isso no texto anterior.
Tudo naquele pequeno estabelecimento sinalizava conforto, cheirava a casa de vó (inclusive pelas imagens religiosas por todos os cantos). O que fazia todo o sentido. A dona era uma senhora extremamente gentil e hospitaleira, no auge dos seus sessenta anos. Ela mesma preparou nosso café da manhã. - Como vocês preferem os ovos?
E os preparou na hora mesmo. Segundo o Zaid, provavelmente aqueles quartos teriam sido dos filhos daquela mulher, anos atrás. Diante da imensidão, e do vazio, quando se foram, decidiu adotar outros filhos, os do mundo. Assim, abriu sua casa e seu coração. Sorte a nossa que aqueles passarinhos esvaziaram o ninho.

Deixamos a pousada e partimos para a praia. O lugar onde, na noite passada, havíamos deslumbrado a lua e o mar, calmo, sereno. Pude ver, então, cada onda me dizendo adeus (ou, quem sabe, até logo). Voltamos para lá, dessa vez diante de alguns raios de sol. Enxerguei, então, o que a noite havia escondido. E todas as vezes que olhava para o homem ao meu lado, lembrava: tudo isso está prestes a acabar.
Saímos da praia e seguimos pelas lojinhas do pequeno centro daquela cidadezinha. O Zaid me acompanhou, pacientemente, em cada uma delas. Eu procurava, na ocasião, um Senhor dos Ventos para presentear minha tia Scheila, quando chegasse ao Brasil. As buscas foram em vão, mas o passeio não.

(Continua)

quinta-feira, 4 de junho de 2015

O último fim de semana


Sempre achei fins de tarde melancólicos. Desde pequena, lá no Rincão da Serra, quando ouvia o som dos caminhões no asfalto (afinal, era o único momento que eu parava) meu coração se enchia de um sentimento que não sabia muito bem explicar. Bom, o tempo passou e ainda não sei. Agora, porém, outros tipos de lembranças fazem o peito palpitar acelerado. Outros tipos de sons levam o pensamento para longe, bem longe. Ou melhor, para o outro lado do oceano.

Quando vi o sol se pôr, pela última vez, em Cape Town senti que jamais esqueceria aquele momento. Ele fechou, com chave de ouro, um dos dias mais bonitos, intensos e doloridos que já vivi. Aquela segunda-feira, de 29 de setembro de 2014, foi de uma magia que jamais gostaria de ter perdido. E serei eternamente grata a quem fez parte dela. Confesso, também, que gostaria de poder viver mais dias como aquele. Lá mesmo, na África do Sul.

Que me desculpe o Zaid, mas não posso deixar que o tempo leve e apague essa história. Mesmo depois de nove meses, agora criei coragem para contá-la. Vou abrir meu coração de uma forma que muitos vão considerar ingenuidade ou qualquer coisa do tipo. Mas eu vou. Ultimamente não tenho tido medo de muita coisa.

Acredito, também, que trazer à tona possa ser uma forma de matar as saudades, de pensar o quão sortuda fui por ter encontrado alguém tão especial, em meio a tantas coisas que não saíram como o planejado. Alguém que foi meu amigo, meu companheiro. Alguém que me ajudou no que fosse preciso e que se arrependeu, assim como eu, no último instante. Arrependimento por não termos passado mais tempo juntos, por não termos compartilhado mais a vida.
Hoje dou o primeiro passo. Amanhã passo a delinear a página número um de um conto que ficou bem longe de ser de fadas. Amanhã passo a contar, para quem quiser ver, o conto mais estranho e sensacional que meus 27 anos já testemunharam, e que não é, de forma alguma, uma declaração. Amanhã eu demonstro, por meio de frases e parágrafos, afinal, o que me inspirou a voltar a escrever.

So, stay with me. I see you tomorrow. :) 

terça-feira, 3 de março de 2015

Nas árvores

O sonho da minha vida sempre foi ter uma casa na árvore. Melhor, ainda é. Nos últimos tempos, todas as vezes que admiro galhos deixando as folhas voarem, no Rincão da Serra, também me deixo levar com elas. Sigo para longe e imagino. 

Sinto meus pés percorrendo a escada de madeira, me levando até o alto. Aquele cheiro de rusticidade, aquela magia de parecer ser criança novamente. Mesmo que fantasia, a possibilidade de sentir todas essas emoções, de verdade, já determinaram um dos tantos objetivos que ainda tenho pela frente.

Assim, apenas dois meses distante dos meus 27 anos, posso afirmar: ainda terei o prazer de ter a casa própria. Só que na árvore. Aí terá forma, finalmente, a promessa que meu padrinho fez quando eu ainda era carregada no carrinho de mão; quando aprendi, na marra, que não seria tão fácil concretizar um sonho; quando aprendi que promessas, por muitas vezes, são apenas promessas.

Quando eu abrir a porta da minha casa nas alturas, poderei ver as sombras de cima. Descalça, pretendo ficar lá em cima por horas, dias e noites.  Quero fingir tocar as estrelas, deixar que o céu me cubra de toda a positividade possível, que os sons do mato (nem mais tão mato assim) possam ser escutados entre outros barulhos ou no silêncio. 

Que a inauguração da minha casa na árvore ocorra em um dia eterno, cheio de pássaros ao redor. Não levarei nada para enxugar as lágrimas, pois quero que experimentem a adrenalina de cair até o chão, sem paraquedas. Serei totalmente liberta.

Na verdade, não sei se levarei algo. Creio que não haverá espaço. Na concretização de mais um sonho, possivelmente, caberá apenas toda minha emoção, toda minha comoção.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Meu guri

*Texto de 22 de janeiro de 2015

Tenho medo da velhice. Mesmo que a vida por lá possa ser bem bacana, tenho medo. No passar dos dias, contudo, procuro não pensar muito nisso. Tento focar naquele lance de aproveitar o hoje, sem se ocupar muito com o que vai me acontecer láááá para frente. Afinal, nem sei como é ser, na pele, idoso (ainda posso usar esse termo?). Não sei mesmo...

Quanto ao assunto, porém, posso afirmar que soa bem estranho ouvir que seu cachorro se tornou um “velhinho”. Foi exatamente o que escutei, ao lado da minha mãe e do meu irmão, na segunda-feira, da médica veterinária. Sabe aqueles dias que você evita pensar, justamente, para que não chegue? Pois, é.

O fato é que chegou a hora. O Zeus, bebezinho em dezembro de 2005, cresceu e agora faz parte da galera dos bailes da melhor idade. Apesar de ter levado uma espécie de soco quando perguntei sobre a expectativa de vida (os grandes cães chegam, em média, até os 14 anos), torço muito para que nada daquela conversa tosca tenha invadido os ouvidos do Zeuszulino.

Acredito que, se ninguém disser a ele, o totó vai continuar agindo como um menino. Apesar de algumas enfermidades estarem chegando para a temporada de férias, ele precisa manter a mente jovem. Não é assim que contam os segredos para levar a vida de boa?

Ele vai continuar se exercitando, correndo atrás de raposas, lebres, lagartos e caminhões de leite; vai manter os “olás” cheios de energia que nos oferta quando chegamos à chácara; vai continuar sendo o guri vistoso que o entregador de pizza amou desde o primeiro instante; vai continuar a teimar, como bom Dobermann que é. Ele só vai começar a comer ração Sênior... E isso, pois recomendações médicas precisam ser seguidas.

Prometo, até, parar de chamá-lo de meu “véio”, de notar os pelos brancos que crescem desesperadamente, de contar nos dedos os aniversários (até porque depois desse ano vai faltar mesmo). Pode até ser que meu egoísmo de “mãe” esteja florescendo. Mas só quero que ele não pare de ser esse adolescente, de me ensinar um tanto de coisas novas todos os dias.


E que ele continue fugindo de mim quando quero medicá-lo. Afinal, toda essa rebeldia e arte deixam claro: a idade não importa. Há almas que jamais envelhecem.