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quinta-feira, 5 de junho de 2014

Sinta Cape Town

Admirar o nascer do sol ou o seu poente é uma das atividades preferidas de quem está em Cape Town. Há lugares de sobra para se despedir ou agradecer por mais um dia. Mesmo que ele se esconda sob os dias chuvosos de inverno, a natureza que nasce nos mares e nas montanhas se encarrega de compensar sua breve fuga.

Quem ama viver rodeado por pessoas de todos os lugares possíveis, conhecer novas realidades e desfrutar de momentos únicos vai encontrar na cidade o seu recanto. Nas ruas pode-se ver o mundo inteiro. Nas vestes, nos cabelos, nas mochilas, nas falas primárias no inglês, no modo de dançar e de dirigir, nos pratos expostos nos menus há um pouco de cada canto do Planeta.

Assim como em qualquer país, na África do Sul a diversidade cultural e natural também divide espaço com as desigualdades sociais. Há tantos pedintes nas ruas que o fato já virou característica do lugar. As townships (favelas) também retratam a necessidade de progresso, desenvolvimento e de luta contínua por melhores condições de vida.

A esperança, contudo, jamais morre. Nos cantos, entoados com alegria pelos sul-africanos, e em suas danças alegres a prosperidade se dissemina. Os problemas se vão por um instante, assim como as ondas renovam o mar a cada segundo.

É essa a força de Cape Town. Seja nos braços de seus moradores, nos sorrisos de turistas, nos sonhos de intercambistas, nas minibus que divertem ao mesmo tempo em que ensinam. Só quem vive a Cidade do Cabo pode entender. Enjoy!
Vista da Table Mountain

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Mais um

Nas ondas da vida
(texto publicado no dia 27/05, na Folha de Candelária, página 3)


Vários passarinhos verdes que vivem pelo Facebook me contaram,
na última semana, que as temperaturas já estão baixas por
aí. Pelo número de relacionamentos sérios que se iniciaram nos
últimos tempos, suspeitei que o inverno estivesse chegando com
tudo na região. Brincadeiras à parte, em Cape Town os termômetros
também começaram a marcar números baixos. Dizem que
o inverno aqui é bastante rigoroso e que se assemelha com o Sul
do Brasil. Veremos!

Já que os pensamentos estão um tanto gelados, que tal esquentá-
los um pouco falando sobre praia? Pode ser uma boa, não é
mesmo? Ah, nem que seja para matar a saudade! Aqui na Cidade
do Cabo conheci lugares maravilhosos. Assim que cheguei, em
abril, tive a sorte de ainda contar com dias ensolarados e quentes.
Perfeitos para passear por algumas praias e conhecer a realidade
daqui. Muizenberg, Simon's Town, Clifton, Camps Bay
e Hout Bay foram algumas delas.

A paisagem, sem sombra de dúvida, encanta qualquer um. Eu,
que não sou muito fã, desejei ter uma casinha por lá. O misto de
água e areias limpas, rochas grandiosas com montanhas contornando
a paisagem deixa qualquer um apaixonado. Sem falar que
em algumas há pinguins!

Mas, como a maioria das coisas, nem tudo é perfeito. A água é
realmente muito gelada. Tive coragem de colocar apenas os pés
dentro e senti que ficaram anestesiados em segundos. Pelo menos
em algum ponto se parecem com a realidade gaúcha.

Um grande diferencial, em relação com as praias brasileiras,
no entanto, é a inexistência de ambulantes (vi apenas vendedor
de picolé e de água), de carros de som, de grupos fazendo churrasco
ou bebendo à beira-mar. Quase nem vi pessoas usando
biquíni, acredite. Enquanto por aí vendem de tudo (no verão
sempre acho que alguém ainda vai passar vendendo a mãe), por
aqui é a paz que reina sobre a areia. Bonito de se ver!

***

Por falar em mar, hoje gostaria de poder estar diante dele, rezando
por um ente querido. Aproveito para dedicar esta coluna
ao meu tio avô, Lauro Arent, que faleceu na manhã desta segunda-
feira, em Santa Cruz do Sul (RS). É difícil estar tão longe num
momento como esse. Ele, que cuidou de mim e do meu irmão
quando pequenos, vai deixar muitas saudades, com certeza.
Como não poderei abraçar a família fisicamente (eis o lado ruim
do intercâmbio), fica aqui minha homenagem a um dos grandes
companheiros de chimarrão que tive. “The peace for the Lord be

always with you. Amen”.

terça-feira, 27 de maio de 2014

Antes tarde

Desde o último post já faz mais de dois meses que deixei de aparecer por aqui. Aconteceram tantas coisas nesse tempo... Uma delas, inclusive, foi o convite que recebi da amiga, jornalista e editora da Folha de Candelária, Cláudia Priebe, para publicar uma coluna semanal no veículo de comunicação. 

Feliz da vida, aceitei na hora! Compartilho, então, os dois primeiros textos. Caso queira receber o pdf por e-mail, comente aqui, envie mensagem no Facebook ou envie solicitação para o meu e-mail (heloisalp@yahoo.com.br). Boa leitura! :)

***

Agora sou África
(texto publicado no dia 13/05, na Folha de Candelária, página 3)

Escrevo o primeiro texto desta coluna justamente quando
completo o primeiro mês na Cidade do Cabo (Cape Town), na
África do Sul. O tempo, esse danado, passou depressa, como
sempre. Ainda lembro bem do dia 12 de abril, um sábado, quando
deixei a casa dos meus pais, em Vera Cruz (RS), para me aventurar
em outro país. Finalmente compreendo, com toda minha
alma, quando Zezé di Camargo canta "no dia em que eu saí de
casa...".

Ao longo desses trinta dias aprendi demais. Não há manhã,
tarde e noite que passe sem aprendizado. E tudo isso não é exagero.
Sair de uma cidade interiorana, com seus pouco mais de
20 mil habitantes, para uma metrópole de milhões de pessoas é
uma experiência bastante interessante. Às vezes me sinto como
um filhote de leão que descobre, aos poucos, a vida selvagem.
Um país um tanto parecido com o meu, mas, ao mesmo tempo,
tão diferente.

A convite da Editora e amiga Cláudia Priebe, neste espaço
pretendo contar um pouco do dia a dia e da experiência na Cidade
Mãe, como também é chamada. Estou apenas no início de
uma jornada de seis meses (retorno ao Brasil no dia 30 de outubro)
e já não tenho mais espaço na mala para tantas lições. No
pouco tempo já evoluí como pessoa, tento lidar com minhas
dificuldades e apoiar aqueles que estão na mesma situação (e
como há pessoas dividindo as mesmas angústias por aqui!).

Viagens, momentos divertidos, idas ao supermercado, o momento
de atravessar a rua, similaridades e diferenças da cidade
sul-africana em relação ao Vale do Rio Pardo, medos, vitórias.
Tudo isso será desenhado aqui, entre linhas e parágrafos. Você,
leitor, está convidado a participar com dúvidas, sugestões e críticas.
Basta escrever para o meu e-mail (heloisalp@yahoo.com.br)
 ou entrar em contato com a Folha de Candelária.

Prometo traduzir o intercâmbio de forma leve, prazerosa e
responsável. Ah, ainda tem um detalhe. Estou aqui sem saber
falar o inglês! No ano passado recebi a visita da loucura e decidi
viajar com ela para aprender, de uma vez por todas, o bendito
(às vezes acho maldito) idioma. Há tantas coisas por dizer. Preciso,
agora, de foco (e aprender a escrever tantas coisas em apenas
algumas linhas). Na próxima coluna tem mais. Keep calm
and enjoy South Africa!

***

Na ponta da língua
(texto publicado no dia 20/05, na Folha de Candelária, página 3)

Se alguém me perguntasse hoje "Qual o seu maior desejo?",
sem sombra de dúvidas responderia: almoçar um churrasco bem
bagual, de sobremesa comer bergamota no sol e tomar aquele
chimarrão com a família e os amigos. Simples, não é mesmo?
Seria, se eu não estivesse na Cidade do Cabo, na África do Sul.
Por aqui tem sido fácil sonhar com as delícias do Vale do Rio Pardo.
Cucas, galinhada, carreteiro de charque, tortas, pinhão, brigadeiros,
linguiça... Ok, ok melhor parar por aqui.

No voo de Joanesburgo para Cape Town, no dia 13 de abril, a
aeromoça perguntou o que eu gostaria de jantar. Logo se adiantou
e falou quais eram as opções. Lógico que não entendi nada.
Só compreendi o "beef or chicken". Louca por um pedaço de carne,
escolhi a primeira. Quando abri a bandeja vi que se tratava de
uma espécie de salsichão. Poderia ter sido bom não fosse o
excesso de pimenta. Ali, na inocência, não imaginei que teria início
uma saga sem fim.

As "delícias" por aqui são, muitas vezes, mergulhadas na pimenta.
Eu, nada fã de temperos, tenho sofrido bastante. Após um
mês, no entanto, já me acostumei a perguntar antes "This has
pepper?" (Isso tem pimenta?). O sorriso se alarga quando o atendente
diz que não. Mas o estômago pede paz quando percebe que
sim, há alguma coisa muito picante em meio à massa, ao pão ou
seja lá o que for. Felizmente os doces (prefiro os daí) não têm a
especiaria. Ufa!

O churrasco, famoso "braai", achei uma tristeza. Tive a oportunidade
de comer somente uma vez (estava animada), mas a
pimenta deu fim aos sonhos de uma gaúcha com saudades da
culinária do Sul. Às vezes é difícil de sentir o gosto da própria
comida. É praticamente impossível, para mim, apreciar a iguaria
enquanto me sinto como um dragão, cuspindo fogo por todos
os lados.

Preparar carreteiro em casa tem sido a opção para driblar a
saudade e a pimenta. Outros alimentos, contudo, também parecem
ter gosto diferente dos brasileiros, como o milho verde e a
batata. Outra peculiaridade aqui é o uso do abacate (avocado)
em salgados. Um exemplo bem comum são as pizzas. Até gostei,
confesso.

Enquanto o dia 30 de outubro não chega (por favor, me convidem
para churrascos de boas-vindas) levo a vida de "cachorro
assistindo máquina de assar frango". Como coisas na Cidade do
Cabo, mas imagino que são as de Santa Cruz do Sul, Vera Cruz,
Candelária... Por enquanto as panquecas e os waffles, que podem
ser encontrados com facilidade, nutrem a saudade nada
doce.

terça-feira, 18 de março de 2014

Super Zeus

O Zeus não corre mais atrás do caminhão do leite. Observei isso faz umas duas semanas. Apesar de todos os alertas que dei a ele, sobre as inúteis tentativas de alcançar o caminhão, agora me preocupo.

Para quem ainda não conhece, Zeus é o meu cachorro amado, meu grande amigo, salvo o grande clichê que isso possa parecer. Em dezembro do ano passado fez oito anos que me acompanha dia após dia, pata sobre pata. Durante as aventuras do Brechó da Lolô ele se fez presente em praticamente todas, mesmo que pudesse permanecer apenas em uma sala reservada.

Às vezes, quando o movimento reduzia, eu e ele ficávamos em frente ao velho armazém. Sentávamos na calçada e observávamos um sem número de vidas. Nossos momentos de cumplicidade eram os melhores de qualquer tarde. Ficaram eternizados em minha memória e na dele também, acredito.

De vez em quando, compartilhávamos de momentos tensos. Era quando o caminhão do leite se aproximava. O som dos freios enlouquecia o Zeus. E a mim também. Nada o faria mudar de ideia. Nem o sono mais tranquilo de toda sua vida; a cadelinha mais linda do Rincão passando do outro lado da rua; o bife mais suculento correndo na sua frente.

O passar do veículo era sinônimo de vida louca; de correr e latir com todas as suas forças, até a cerca não permitir mais; de dar o melhor e tentar, como se fosse a primeira vez, morder aquelas rodas tão grandes.

Nos últimos dias, porém, Zeus deixou o amante de lado. Não se interessa mais. Cogitei, uma vez, em correr atrás, para tentar animá-lo, mas sua desistência me soou soberana. Simplesmente não quer mais. Perdeu a graça, será? Ou, num dia que não estive por lá, chegou, finalmente, a alcançá-lo? Quisera eu que as duas respostas fossem afirmativas.

Desconfio, preocupada, de sua velhice precoce. Os pelos brancos podemos pintar, qualquer dia desses, num pet shop. Mas e os efeitos dos anos sobre o corpo de quatro patas? O que podemos fazer contra eles? Ou será que não tem nada a ver? Heloísa, coisas da sua cabeça?

O bom da vida é que sempre podemos pensar diferente, no melhor. Na tarde de terça-feira, enquanto organizava roupas e mais roupas no interior do brechó, o Zeus permaneceu junto. Firme e forte, como sempre.

Quando o som do caminhão do leite ressurgiu das cinzas não nos preocupamos, nem nos importamos. Deitado em frente à mesa com base de alumínio, o cachorro preferiu permanecer ali, imerso em sonhos. Delicadamente repousei, sobre ele, uma camiseta minha.

Entendi, de uma vez por todas, que Zeus está bem. Ele só quer curtir os últimos dias ao meu lado, antes da grande viagem (pensamento egoísta?). Depois do dia 12 de abril, sim, ele vai começar a correr de novo, da mesma forma de antes. Se for inteligente, como sei que é, ainda será mais potente. Vai fazer uma capa, de cachorro herói, com o meu presente.

Sentirei saudades.


segunda-feira, 10 de março de 2014

Arriscar

Lembro bem quando cheguei ao meu local de trabalho no dia 15 de outubro de 2013. Estava cansada. Afinal, os dez dias de férias haviam sido reservados para trabalhar durante a 29ª Oktoberfest, em Santa Cruz do Sul.

O cansaço físico, no entanto, não era o único que acometia meu corpo. A mente, inquieta, já mostrava sinais de cansaço muito antes de outubro. Naquela terça-feira, contudo, cheguei ao limite. Deixei que a fita se rompesse. Precisava procurar outra linha de chegada.

Minha reflexão, naquela manhã, em princípio tão comum quanto as outras, durou alguns minutos. Abri o e-mail e, logo em seguida, a página. Em branco. A hora tão esperada era aquela. Respirei fundo, comecei a digitar. Deletei tudo e respirei novamente. Escrevi mais uma vez, apaguei pela segunda. Na terceira, inspirei com toda a força. Quando expirei, as palavras começaram a deslizar.

Depois da primeira frase, os dedos começaram a fazer festa. O coração começava a se sentir aliviado por dar um importante passo: o da mudança. Ao mesmo tempo, uma voz ao lado dizia: “Heloísa, você só pode estar louca”. Confesso que ainda concordo com ela em alguns momentos.

Sem pedir opiniões, enviei. Fechei os olhos, morri de medo e cliquei no botão. Até a resposta chegar, levava sustos a cada nova mensagem. Daquele momento em diante vivenciei segundos, horas e minutos tensos. Na fração incerta de tempo do retorno depositei toda a agonia da nova semana de trabalho.

Mais tarde cheguei em casa temerosa. Qual seria a reação da família ao saber da silenciosa e insperada decisão? Qual seria a minha reação diante de novos argumentos e justificativas impensados? Teria eu feito a decisão certa? Apesar da boa reação de todos, até hoje não sei a resposta para a última pergunta. Creio, no entanto, que sim. Creio que sim.

O ápice da “loucura”, como alguns intitularam, veio mais tarde. Talvez aí estava a decisão que mudaria, de vez, o rumo de toda uma vida: viajar para a África do Sul. Do desejo de conhecer o país como simples turista, a vontade de morar lá por alguns meses. Se estou com medo? Morrendo. Se penso no que representam seis meses? Sim, meio ano longe da família, dos amigos e de tudo o que já conheço. Sem falar no idioma.

Mas, no fundo, bem no fundo, algo diz para continuar (nessa altura, também, nem adianta mais dizer o contrário. Hehehe). Prestes a entrar no último mês de convivências em solo brasileiro, as pernas começam a tremer, a barriga insiste em doer e o sono... Ih, esse parece que já viajou. Não o encontro mais.

Tantas incertezas, tantos medos. O mais certo, acredito, é pensar sempre no melhor. É focar naquela: “o tempo passa depressa demais”. Há parentes e amigos, por exemplo, que não vejo há anos, meses... Quero, com toda a certeza, aproveitar ao máximo cada segundo. Tanto aqui, quanto lá. Da mesma forma que faço contagem regressiva para ir, acredito, também, na emoção de poder contar mais tarde, aqui mesmo, a tranquilidade e a alegria do dia 30 de outubro.
Até lá, muita calma. Haverá muitas horas e muitas outras experiências para contar. ;)