Lembro bem
quando cheguei ao meu local de trabalho no dia 15 de outubro de 2013. Estava cansada.
Afinal, os dez dias de férias haviam sido reservados para trabalhar durante a 29ª
Oktoberfest, em Santa Cruz do Sul.
O cansaço
físico, no entanto, não era o único que acometia meu corpo. A mente, inquieta,
já mostrava sinais de cansaço muito antes de outubro. Naquela terça-feira,
contudo, cheguei ao limite. Deixei que a fita se rompesse. Precisava procurar
outra linha de chegada.
Minha reflexão,
naquela manhã, em princípio tão comum quanto as outras, durou alguns minutos. Abri
o e-mail e, logo em seguida, a página. Em branco. A hora tão esperada era
aquela. Respirei fundo, comecei a digitar. Deletei tudo e respirei novamente. Escrevi
mais uma vez, apaguei pela segunda. Na terceira, inspirei com toda a força. Quando
expirei, as palavras começaram a deslizar.
Depois da
primeira frase, os dedos começaram a fazer festa. O coração
começava a se sentir aliviado por dar um importante passo: o da mudança. Ao mesmo
tempo, uma voz ao lado dizia: “Heloísa, você só pode estar louca”. Confesso
que ainda concordo com ela em alguns momentos.
Sem pedir
opiniões, enviei. Fechei os olhos, morri de medo e cliquei no botão. Até a
resposta chegar, levava sustos a cada nova mensagem. Daquele momento em diante
vivenciei segundos, horas e minutos tensos. Na fração incerta de tempo do retorno depositei toda a agonia da nova semana de trabalho.
Mais tarde cheguei
em casa temerosa. Qual seria a reação da família ao saber da silenciosa e insperada decisão? Qual seria a minha reação diante de novos argumentos e justificativas
impensados? Teria eu feito a decisão certa? Apesar da boa reação de todos, até
hoje não sei a resposta para a última pergunta. Creio, no entanto, que
sim. Creio que sim.
O ápice da “loucura”,
como alguns intitularam, veio mais tarde. Talvez aí estava a decisão que
mudaria, de vez, o rumo de toda uma vida: viajar para a África do Sul. Do
desejo de conhecer o país como simples turista, a vontade de morar lá por alguns meses. Se
estou com medo? Morrendo. Se penso no que representam seis meses? Sim, meio ano
longe da família, dos amigos e de tudo o que já conheço. Sem falar no idioma.
Mas, no fundo, bem
no fundo, algo diz para continuar (nessa altura, também, nem adianta mais dizer
o contrário. Hehehe). Prestes a entrar no último mês de convivências em solo
brasileiro, as pernas começam a tremer, a barriga insiste em doer e o sono...
Ih, esse parece que já viajou. Não o encontro mais.
Tantas incertezas,
tantos medos. O mais certo, acredito, é pensar sempre no melhor. É focar naquela: “o
tempo passa depressa demais”. Há parentes e amigos, por exemplo, que não vejo há
anos, meses... Quero, com toda a certeza, aproveitar ao máximo cada segundo. Tanto aqui, quanto lá. Da
mesma forma que faço contagem regressiva para ir, acredito, também, na emoção de
poder contar mais tarde, aqui mesmo, a tranquilidade e a alegria do dia 30 de outubro.
Até lá, muita calma. Haverá muitas horas e muitas outras experiências para contar.
;)