No Clube da Helô você não paga mensalidade, não precisa de carteirinha, nem de exame médico. Aqui, quem tem mente aberta, bondade no coração e alegria no sangue é visitante vip. E para esses a entrada é liberada! Seja bem-vindo! :D

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Meu querido dorme-dorme

O velho portão, enferrujado pelo tempo, protege a planta. As estações mudam, o sol faz dia, a lua faz noite e o dorme-dorme permanece lá. Sobre a terra, ergue seus pequenos galhos e abre grandes horizontes.

Na calçada, em frente ao canteiro, pequenos pés se divertem com a esperteza da vida. As mãos, também pequenas, tocam nas folhas. Elas se fecham. É o singelo afago dos dedos, capaz de fazer com que os ramos adormeçam por um instante.

Presente, truque da  natureza à menina. Tios, amigos, pai, mãe. Todos são convidados a assistir o espetáculo do dorme-dorme. Plateia pequena. Grandes aplausos.

Enquanto a alegria se faz diante do verde, trabalhadores, crianças, carros, carroças e ônibus trilham suas vidas na marrom estrada de chão. Desenvolvem seus presentes rumo ao futuro.

Nem mesmo os passos apressados e as pedras soltas são capazes de minimizar a relação de amor entre a criança e a planta. O dorme-dorme se fecha, mas acorda. Faz pulsar o coração. Entusiasma a infância.

O tempo passa.

De marrom, a estrada agora é cinza. O velho portão enferrujado, também. As novas grades não puderam proteger o pequeno pé de folhas engraçadas. Enquanto isso, a menina cresceu. Teria ido a plantinha repousar no céu? Teria ela renascido em outro lugar, adubado esperanças?

Dorme-dorme nas lembranças. Dorme-dorme no toque das mãos. Dorme-dorme eterno, no coração.

*Memórias de Lolô

segunda-feira, 24 de junho de 2013

O riso sumiu

Meu avô materno sempre foi uma figura. Divertido, alegre, espontâneo, contrário à qualquer frescura. Sempre foi, também, muito teimoso. Muito mesmo. Quem conhece o seu Romeu sabe bem disso. 

Ao longo desses meus 25 anos, no entanto, vi que ele manteve a graça da teimosia, mas deixou de lado a sua alegria de viver. Inverteu valores. Fez tudo errado. Mudou onde não devia e permaneceu o mesmo onde não precisava.

Não sei bem quando isso aconteceu, mas meu vovô se tornou uma pessoa triste, cabisbaixa, sem sonhos. E era só disso que a depressão precisava. Tomou ele aos poucos. Não pediu licença e se tornou companhia diária na sala, na cozinha, no quarto, nas horas de sono. 

A malvada, enfim, conseguiu tomar por completo um homem bom. Aliás, bondade foi e ainda é uma das grandes virtudes dele. Não mede esforços para ajudar os outros. Se preocupa com o bem-estar da família e sofre, sofre muito, com cada dificuldade. Mesmo assim a deprê se fez soberana.


Foi, então, quando meu avô largou de mão, totalmente, o cara do espelho. O nascimento da neta mais nova, há dois anos, até fez com que ele ensaiasse novos sorrisos. Até deu novo tom de felicidade aos seus setenta e poucos anos. Só que não foi suficiente. 

Hoje, seu Romeu está doente. Não se sabe ainda ao certo o que acomete seu corpo. Sabe-se apenas o óbvio. O avô, grande apreciador de churrascos, de uma cervejinha, o apostador de loterias, o inventor de modas, o experiente caminhoneiro, o pseudo-engenheiro, o guri de Sinimbu dá sinais de que já desistiu de tudo. Tão jovem, mas tão velho nos seus ideais. 

Enquanto as linhas deste texto se formam, ainda tento encontrar motivos. Sorrisos não somem assim, tão fácil. Como pode? Talvez eu até saiba as razões. Talvez não queira enxergar. Como boa neta, entretanto, prefiro teimar e torcer para que o seu Romeu abra, de novo, as portas para a alegria.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Baleinha baby

Nessa onda de concursos, de novas cortes, embarquei e decidi contar a minha experiência. Tudo bem que esse blog, muitas vezes, parece meu querido divã. Mas tudo bem, também, que é importante saber lidar com traumas e outras coisitas más. Pelo menos eu tento.

Quando criança, minha família era sócia do Clube Aliança. Eu, minha mãe, meu irmão, minha tia, e por aí vai, éramos felizes frequentadores das piscinas. Época linda, boa, resfrecante. Foi ali, nos anos 90, que tomei uma terrível decisão: concorrer à Panterinha Baby.

Naqueles tempos, todos os clubes realizavam esses concursos. O motivo principal era escolher a rainha, adulta, que representaria a entidade no saudoso Rainha das Piscinas, organizado pelo colunista social Ike. Quem não lembra, não é mesmo?

Até hoje eu tento encontrar vestígios, rastros do que me levou a embarcar nessa. Não me conformo. Como meus pais puderam deixar que isso acontecesse? Era mais fácil, sim, muito mais fácil eu ganhar o Baleinha Baby!

Apareci no jornal, na página das candidatas. A família se reuniu para assistir o show. Vesti o biquíni (sim, eu tive coragem) rosa e verde e me fui. Sinceramente, não lembro, mas será que achei, em algum momento, que teria chances? Não. Isso só pode ser piada. Isso só pode ser um pesadelo! Infelizmente não é.

Até hoje guardo a página da Gazeta do Sul, sem falar nas fotos, expostas em álbuns de família, que assombram meu passado cruel. Ah, ainda teve o lindo comentário de uma concorrente, antes de ganharmos a passarela: "Olha só o tamanho da barriga dela. A minha é bem menor". Tudo bem, crueldade não escolhe idade, classe social e concurso de beleza muito menos (deviam ter me avisado que era um de magreza).

Os anos passaram e sempre levei isso na esportiva (apesar do pequeno trauminha, guardado no fundo do coração). Lá em casa todos riem, principalmente meu irmão. E todas as vezes que o assunto renasce das cinzas, pergunto para a dona Juliana como isso foi possível. Por qual motivo não me barraram? Por que não me impediram? Se fosse só a barriga, mas nem o cabelo ajudava!

A mãe ri, não querendo rir. Mas não há escapatória. Não há.

Ela não responde e eu tento entender: filhos são perfeitos sob a vista maternal. Podem ser o bichinho da goiaba, da maça ou do pepino, mas são lindos, maravilhosos. Os fatos estão aí.

Diante do meu fracasso evidente ela estava lá, na torcida, ainda preocupada em registrar, para a eternidade, o momento (aaaaaaah!!).  O que me conforta nisso tudo: pelo menos pra minha mãe posso ser qualquer coisa. De panterinha a baleinha vou estar um espetáculo. Sempre.

Salvem as mães!
Não encontrei a foto do desfile (obaaa!!), por isso segue a que saiu no jornal

sexta-feira, 7 de junho de 2013

"Danada vem que vem"

No Rincão da Serra, onde passo grande parte dos meus dias, há uma escola, a Dom Pedro II. Singela, com cercas novas, pátio imenso, abriga um pequeno número de alunos. De segunda a sexta é lá que eles têm a chance de fazer e ser história.

Aos cuidados de apenas uma professora (que é, também, merendeira, diretora, faxineira e sabe-se lá o que mais), imperam sonhos de reinados inocentes (?), distintos e cheios de juventude.

Nessa mesma escola, de onde florescem boas lembranças (aqui surgem mais histórias de minha linda infância), sons desconcertantes voam junto com os pássaros. Às vezes, quisera eu que não passassem daquele pátio, que voassem, literalmente, para bem longe. Vizinhos, no entanto, precisam conviver, nas alegrias e nas tristezas.

Pelas 15h 30, quando inicia o recreio, meninas e meninos se reúnem para cantar. É nesse momento, geralmente, que caio em desespero. O coro seria lindo, esplêndido, de arrancar largos sorrisos, não fossem as letras de funk. Isso mesmo: FUNK. Pequenos, no auge de seus sete, oito, nove anos cantam, em alto e bom tom, o que chamam de música.

Vai danada vem que vem
Rebola até o chão
Requebra que hoje
Eu quero ver bumbum mexendo
Vou pedir pro dj toca só pra te ver dançar
Vem pro meu mundo se acabar


E aquilo não sai mais da minha cabeça. Vira, mexe e remexe, causa estragos na sutil esperança de Heloísa. Crianças e funk, crianças e funk, crianças e funk. Nessas horas começo a torcer para que 1 + 1 = 3 esteja mais certo do que isso. Torço, de coração, para que aquela casa muito engraçada, sem teto e sem nada volte a ser construída por ali. Um dia.

A música do vídeo abaixo é outra que as crianças adoram. :O (!!!)


Ps.: claro que as preferências musiciais duvidosas não são exclusividade das crianças do Rincão.