O Zeus não corre mais atrás do caminhão do leite. Observei isso faz umas duas semanas. Apesar de todos os alertas que dei a ele, sobre as inúteis tentativas de alcançar o caminhão, agora me preocupo.
Para quem ainda não conhece, Zeus é o meu cachorro amado, meu grande amigo, salvo o grande clichê que isso possa parecer. Em dezembro do ano passado fez oito anos que me acompanha dia após dia, pata sobre pata. Durante as aventuras do Brechó da Lolô ele se fez presente em praticamente todas, mesmo que pudesse permanecer apenas em uma sala reservada.
Às vezes, quando o movimento reduzia, eu e ele ficávamos em frente ao velho armazém. Sentávamos na calçada e observávamos um sem número de vidas. Nossos momentos de cumplicidade eram os melhores de qualquer tarde. Ficaram eternizados em minha memória e na dele também, acredito.
De vez em quando, compartilhávamos de momentos tensos. Era quando o caminhão do leite se aproximava. O som dos freios enlouquecia o Zeus. E a mim também. Nada o faria mudar de ideia. Nem o sono mais tranquilo de toda sua vida; a cadelinha mais linda do Rincão passando do outro lado da rua; o bife mais suculento correndo na sua frente.
O passar do veículo era sinônimo de vida louca; de correr e latir com todas as suas forças, até a cerca não permitir mais; de dar o melhor e tentar, como se fosse a primeira vez, morder aquelas rodas tão grandes.
Nos últimos dias, porém, Zeus deixou o amante de lado. Não se interessa mais. Cogitei, uma vez, em correr atrás, para tentar animá-lo, mas sua desistência me soou soberana. Simplesmente não quer mais. Perdeu a graça, será? Ou, num dia que não estive por lá, chegou, finalmente, a alcançá-lo? Quisera eu que as duas respostas fossem afirmativas.
Desconfio, preocupada, de sua velhice precoce. Os pelos brancos podemos pintar, qualquer dia desses, num pet shop. Mas e os efeitos dos anos sobre o corpo de quatro patas? O que podemos fazer contra eles? Ou será que não tem nada a ver? Heloísa, coisas da sua cabeça?
O bom da vida é que sempre podemos pensar diferente, no melhor. Na tarde de terça-feira, enquanto organizava roupas e mais roupas no interior do brechó, o Zeus permaneceu junto. Firme e forte, como sempre.
Quando o som do caminhão do leite ressurgiu das cinzas não nos preocupamos, nem nos importamos. Deitado em frente à mesa com base de alumínio, o cachorro preferiu permanecer ali, imerso em sonhos. Delicadamente repousei, sobre ele, uma camiseta minha.
Entendi, de uma vez por todas, que Zeus está bem. Ele só quer curtir os últimos dias ao meu lado, antes da grande viagem (pensamento egoísta?). Depois do dia 12 de abril, sim, ele vai começar a correr de novo, da mesma forma de antes. Se for inteligente, como sei que é, ainda será mais potente. Vai fazer uma capa, de cachorro herói, com o meu presente.
Sentirei saudades.
No Clube da Helô você não paga mensalidade, não precisa de carteirinha, nem de exame médico. Aqui, quem tem mente aberta, bondade no coração e alegria no sangue é visitante vip. E para esses a entrada é liberada! Seja bem-vindo! :D
terça-feira, 18 de março de 2014
segunda-feira, 10 de março de 2014
Arriscar
Lembro bem
quando cheguei ao meu local de trabalho no dia 15 de outubro de 2013. Estava cansada.
Afinal, os dez dias de férias haviam sido reservados para trabalhar durante a 29ª
Oktoberfest, em Santa Cruz do Sul.
O cansaço
físico, no entanto, não era o único que acometia meu corpo. A mente, inquieta,
já mostrava sinais de cansaço muito antes de outubro. Naquela terça-feira,
contudo, cheguei ao limite. Deixei que a fita se rompesse. Precisava procurar
outra linha de chegada.
Minha reflexão,
naquela manhã, em princípio tão comum quanto as outras, durou alguns minutos. Abri
o e-mail e, logo em seguida, a página. Em branco. A hora tão esperada era
aquela. Respirei fundo, comecei a digitar. Deletei tudo e respirei novamente. Escrevi
mais uma vez, apaguei pela segunda. Na terceira, inspirei com toda a força. Quando
expirei, as palavras começaram a deslizar.
Depois da
primeira frase, os dedos começaram a fazer festa. O coração
começava a se sentir aliviado por dar um importante passo: o da mudança. Ao mesmo
tempo, uma voz ao lado dizia: “Heloísa, você só pode estar louca”. Confesso
que ainda concordo com ela em alguns momentos.
Sem pedir
opiniões, enviei. Fechei os olhos, morri de medo e cliquei no botão. Até a
resposta chegar, levava sustos a cada nova mensagem. Daquele momento em diante
vivenciei segundos, horas e minutos tensos. Na fração incerta de tempo do retorno depositei toda a agonia da nova semana de trabalho.
Mais tarde cheguei
em casa temerosa. Qual seria a reação da família ao saber da silenciosa e insperada decisão? Qual seria a minha reação diante de novos argumentos e justificativas
impensados? Teria eu feito a decisão certa? Apesar da boa reação de todos, até
hoje não sei a resposta para a última pergunta. Creio, no entanto, que
sim. Creio que sim.
O ápice da “loucura”,
como alguns intitularam, veio mais tarde. Talvez aí estava a decisão que
mudaria, de vez, o rumo de toda uma vida: viajar para a África do Sul. Do
desejo de conhecer o país como simples turista, a vontade de morar lá por alguns meses. Se
estou com medo? Morrendo. Se penso no que representam seis meses? Sim, meio ano
longe da família, dos amigos e de tudo o que já conheço. Sem falar no idioma.
Mas, no fundo, bem
no fundo, algo diz para continuar (nessa altura, também, nem adianta mais dizer
o contrário. Hehehe). Prestes a entrar no último mês de convivências em solo
brasileiro, as pernas começam a tremer, a barriga insiste em doer e o sono...
Ih, esse parece que já viajou. Não o encontro mais.
Tantas incertezas,
tantos medos. O mais certo, acredito, é pensar sempre no melhor. É focar naquela: “o
tempo passa depressa demais”. Há parentes e amigos, por exemplo, que não vejo há
anos, meses... Quero, com toda a certeza, aproveitar ao máximo cada segundo. Tanto aqui, quanto lá. Da
mesma forma que faço contagem regressiva para ir, acredito, também, na emoção de
poder contar mais tarde, aqui mesmo, a tranquilidade e a alegria do dia 30 de outubro.
Até lá, muita calma. Haverá muitas horas e muitas outras experiências para contar.
;)
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