No Clube da Helô você não paga mensalidade, não precisa de carteirinha, nem de exame médico. Aqui, quem tem mente aberta, bondade no coração e alegria no sangue é visitante vip. E para esses a entrada é liberada! Seja bem-vindo! :D

quarta-feira, 10 de junho de 2015

O príncipe

Quando finalmente chegamos a Cape Town, após uma hora de viagem, deixamos as malas em nossas respectivas casas. Dessa vez, ao chegar no meu apê, convidei o Zaid a conhecê-lo. Apesar dos três meses que estivemos juntos, ele nunca havia visto o local com os próprios olhos.

Jamais esquecerei da expressão que o fotógrafo fez quando viu meu recanto. Não era um lugar sujo, nem precário. Apenas era um sótão, pequeno, bagunçado e compartilhado com outra pessoa. Acredito, eu, que nesse momento ele teve vergonha por dizer, inúmeras vezes, que eu parecia triste o tempo todo. Afinal, isso foi algo que só percebi quando cheguei ao fim da minha viagem. A maioria daqueles que diziam para eu ser forte não teria aguentado nem a metade do que passei. Aí eu entendi o quão forte e corajosa eu era.

As malas passaram a descansar no prédio e partimos para o último passeio. O destino, é claro, poderia ser de minha escolha. Propus, então, uma visita à primeira praia que visitamos juntos. Passamos pela luxuosa Camps Bay e, dez minutos mais tarde, chegamos ao destino.

Eu não estava com roupas praianas. Vestia minhas botas pretas de couro, que doei à doméstica da família do Zaid, naquele mesmo dia. Nos acomodamos na areia, sobre uma manta que havia trazido do Brasil. Lá, naquela segunda-feira, assistimos às aulas de surfe, ministradas pelo professor de uma escola local. O meu parceiro, então, me contou mais detalhes de sua vida escolar, da vida boa que sempre levou. No último dia (sim, no ÚLTIMO), conversamos mais do que em todo o tempo que estivemos juntos.

Quando a fome apertou, decidimos seguir até o Water Front. O Zaid queria me levar a um restaurante que ele gostava demais e que, de acordo com ele, servia o melhor hamburger de Cape Town. Chegamos ao local e fizemos os pedidos. A minha dupla, no entanto, pediu licença e saiu. O tempo passou, o pedido chegou, e o Zaid ainda não havia retornado. Eu louca para atacar o prato, mas não queria iniciar a refeição sem a sua companhia.

Minutos depois ele voltou. Um tanto desajeitado, me entregou uma sacola. Dentro, um presente. Apesar de já ter me presenteado tanto, com momentos, Zaid quis materializar e eternizar aquele momento. No pacote estava uma linda pelúcia. Melhor, um lindo leopardo, mais tarde chamado de Prince. Um dos melhores presentes que já ganhei, de verdade. Passada a emoção do instante, voltamos a nos deliciar no restaurante.

Continua...

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Pensando alto

Naquele dia o Zaid estava especialmente interessado em me agradar. Por isso, fez tudo o que eu desejava. Me levou a lugares que nem ele, acredito eu, sabia que existia. Exemplo disso foi uma loja especializada em materiais para a produção de bijouterias, na saída de Langebaan.

Ele simplesmente estacionou o carro por lá e decidiu que seria interessante gastarmos alguns minutos entre aquelas prateleiras. Como em muitos momentos, ele não estava errado. Foi lá que acabei comprando uma porção de quinquilharias, entre elas o mapa da África, que pude personalizar, e que até hoje estampa o mural pendurado na parede lilás do meu quarto.


Depois daquela parada ainda visitamos uma pequena feira de artesanato, onde homens aparentemente humildes tentavam ganhar a vida. De lá, seguimos a uma colônia de férias. Sob a luz do sol, diante da praia, sentada no muro branco, ouvi dizer que aquele havia sido o cenário de inúmeras férias do Zaid e de sua família. No fundo eu sabia que visitar aquele lugar poderia render lembranças distintas a ele, apesar de não parecer se importar. Um dia, em um texto, explico o motivo.

Além de apresentar o conjunto de apartamentos brancos, de aberturas coloridas, Zaid me levou ao cassino, instalado no mesmo condomínio. Apenas nós dois nos divertimos naquele dia, entre as máquinas de jogos. Ou melhor, ele. Essas casas de jogos não me agradam muito, mas eu não poderia deixar de parecer entusiasmada.

A cada jogo, Zaid ganhava pontos que, mais tarde, poderiam ser trocados por pequenos prêmios. Um deles, por sinal, foi o anel que ainda veste meu dedo médio da mão direita. Foi o melhor presente mais barato que já ganhei de um homem. E, disparado, o mais bonito e sincero.
 
Ao sair dali, ganhamos a estrada. A partir de então todos os quilômetros representavam o retorno a Cape Town e, também, ao Brasil. As rodas trilhavam o asfalto e nossas mentes viajavam muito mais. Meu coração, ao mesmo tempo que pulava de alegria, por voltar para casa, sentia um aperto diferente, uma sensação inexplicável. E as músicas no rádio não nos perdoavam. Ed Sheeran, ao cantar Thinking Out Loud, fez com que segurássemos as lágrimas diversas vezes.

Continua.


sexta-feira, 5 de junho de 2015

A pousada

Havíamos passado a noite em uma pequena pousada da grandiosa Langebann. Grande pela natureza maravilhosa, esplêndida, mas pequena se comparada a Cape Town. O local escolhido para pernoitar era aconchegante demais. Daquele tipo que não se quer deixar.
O quarto tinha uma parede cor de laranja, que eu adoro, e trazia um pensamento: “be so happy that when others look at you they become happy too” (seja tão feliz que, quando outros olharem para você, vão ficar felizes também). E eu estava. Desejei, por vários instantes, que aquele momento jamais se acabasse. Engraçado, mas acho que já disse isso no texto anterior.
Tudo naquele pequeno estabelecimento sinalizava conforto, cheirava a casa de vó (inclusive pelas imagens religiosas por todos os cantos). O que fazia todo o sentido. A dona era uma senhora extremamente gentil e hospitaleira, no auge dos seus sessenta anos. Ela mesma preparou nosso café da manhã. - Como vocês preferem os ovos?
E os preparou na hora mesmo. Segundo o Zaid, provavelmente aqueles quartos teriam sido dos filhos daquela mulher, anos atrás. Diante da imensidão, e do vazio, quando se foram, decidiu adotar outros filhos, os do mundo. Assim, abriu sua casa e seu coração. Sorte a nossa que aqueles passarinhos esvaziaram o ninho.

Deixamos a pousada e partimos para a praia. O lugar onde, na noite passada, havíamos deslumbrado a lua e o mar, calmo, sereno. Pude ver, então, cada onda me dizendo adeus (ou, quem sabe, até logo). Voltamos para lá, dessa vez diante de alguns raios de sol. Enxerguei, então, o que a noite havia escondido. E todas as vezes que olhava para o homem ao meu lado, lembrava: tudo isso está prestes a acabar.
Saímos da praia e seguimos pelas lojinhas do pequeno centro daquela cidadezinha. O Zaid me acompanhou, pacientemente, em cada uma delas. Eu procurava, na ocasião, um Senhor dos Ventos para presentear minha tia Scheila, quando chegasse ao Brasil. As buscas foram em vão, mas o passeio não.

(Continua)

quinta-feira, 4 de junho de 2015

O último fim de semana


Sempre achei fins de tarde melancólicos. Desde pequena, lá no Rincão da Serra, quando ouvia o som dos caminhões no asfalto (afinal, era o único momento que eu parava) meu coração se enchia de um sentimento que não sabia muito bem explicar. Bom, o tempo passou e ainda não sei. Agora, porém, outros tipos de lembranças fazem o peito palpitar acelerado. Outros tipos de sons levam o pensamento para longe, bem longe. Ou melhor, para o outro lado do oceano.

Quando vi o sol se pôr, pela última vez, em Cape Town senti que jamais esqueceria aquele momento. Ele fechou, com chave de ouro, um dos dias mais bonitos, intensos e doloridos que já vivi. Aquela segunda-feira, de 29 de setembro de 2014, foi de uma magia que jamais gostaria de ter perdido. E serei eternamente grata a quem fez parte dela. Confesso, também, que gostaria de poder viver mais dias como aquele. Lá mesmo, na África do Sul.

Que me desculpe o Zaid, mas não posso deixar que o tempo leve e apague essa história. Mesmo depois de nove meses, agora criei coragem para contá-la. Vou abrir meu coração de uma forma que muitos vão considerar ingenuidade ou qualquer coisa do tipo. Mas eu vou. Ultimamente não tenho tido medo de muita coisa.

Acredito, também, que trazer à tona possa ser uma forma de matar as saudades, de pensar o quão sortuda fui por ter encontrado alguém tão especial, em meio a tantas coisas que não saíram como o planejado. Alguém que foi meu amigo, meu companheiro. Alguém que me ajudou no que fosse preciso e que se arrependeu, assim como eu, no último instante. Arrependimento por não termos passado mais tempo juntos, por não termos compartilhado mais a vida.
Hoje dou o primeiro passo. Amanhã passo a delinear a página número um de um conto que ficou bem longe de ser de fadas. Amanhã passo a contar, para quem quiser ver, o conto mais estranho e sensacional que meus 27 anos já testemunharam, e que não é, de forma alguma, uma declaração. Amanhã eu demonstro, por meio de frases e parágrafos, afinal, o que me inspirou a voltar a escrever.

So, stay with me. I see you tomorrow. :)