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segunda-feira, 10 de março de 2014

Arriscar

Lembro bem quando cheguei ao meu local de trabalho no dia 15 de outubro de 2013. Estava cansada. Afinal, os dez dias de férias haviam sido reservados para trabalhar durante a 29ª Oktoberfest, em Santa Cruz do Sul.

O cansaço físico, no entanto, não era o único que acometia meu corpo. A mente, inquieta, já mostrava sinais de cansaço muito antes de outubro. Naquela terça-feira, contudo, cheguei ao limite. Deixei que a fita se rompesse. Precisava procurar outra linha de chegada.

Minha reflexão, naquela manhã, em princípio tão comum quanto as outras, durou alguns minutos. Abri o e-mail e, logo em seguida, a página. Em branco. A hora tão esperada era aquela. Respirei fundo, comecei a digitar. Deletei tudo e respirei novamente. Escrevi mais uma vez, apaguei pela segunda. Na terceira, inspirei com toda a força. Quando expirei, as palavras começaram a deslizar.

Depois da primeira frase, os dedos começaram a fazer festa. O coração começava a se sentir aliviado por dar um importante passo: o da mudança. Ao mesmo tempo, uma voz ao lado dizia: “Heloísa, você só pode estar louca”. Confesso que ainda concordo com ela em alguns momentos.

Sem pedir opiniões, enviei. Fechei os olhos, morri de medo e cliquei no botão. Até a resposta chegar, levava sustos a cada nova mensagem. Daquele momento em diante vivenciei segundos, horas e minutos tensos. Na fração incerta de tempo do retorno depositei toda a agonia da nova semana de trabalho.

Mais tarde cheguei em casa temerosa. Qual seria a reação da família ao saber da silenciosa e insperada decisão? Qual seria a minha reação diante de novos argumentos e justificativas impensados? Teria eu feito a decisão certa? Apesar da boa reação de todos, até hoje não sei a resposta para a última pergunta. Creio, no entanto, que sim. Creio que sim.

O ápice da “loucura”, como alguns intitularam, veio mais tarde. Talvez aí estava a decisão que mudaria, de vez, o rumo de toda uma vida: viajar para a África do Sul. Do desejo de conhecer o país como simples turista, a vontade de morar lá por alguns meses. Se estou com medo? Morrendo. Se penso no que representam seis meses? Sim, meio ano longe da família, dos amigos e de tudo o que já conheço. Sem falar no idioma.

Mas, no fundo, bem no fundo, algo diz para continuar (nessa altura, também, nem adianta mais dizer o contrário. Hehehe). Prestes a entrar no último mês de convivências em solo brasileiro, as pernas começam a tremer, a barriga insiste em doer e o sono... Ih, esse parece que já viajou. Não o encontro mais.

Tantas incertezas, tantos medos. O mais certo, acredito, é pensar sempre no melhor. É focar naquela: “o tempo passa depressa demais”. Há parentes e amigos, por exemplo, que não vejo há anos, meses... Quero, com toda a certeza, aproveitar ao máximo cada segundo. Tanto aqui, quanto lá. Da mesma forma que faço contagem regressiva para ir, acredito, também, na emoção de poder contar mais tarde, aqui mesmo, a tranquilidade e a alegria do dia 30 de outubro.
Até lá, muita calma. Haverá muitas horas e muitas outras experiências para contar. ;)

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