Todas as noites no Rincão da Serra eram de uma magia espetacular. Tudo começava ainda à tardinha, quando dona Lydia invadia a cozinha com todo o seu pique de mãe, mulher, avó e dona de casa. Na pia, ao lado do fogão à lenha, dava forma as mais diversas e deliciosas comidas. Lavava pratos, enxugava outros. Tudo sempre ao olhar atento do seu Walter, que permanecia sentado, acompanhado do chimarrão servido com a água fervente esquentada no fogão à lenha.
Todo o ritual, porém, era interrompido para mais uma atividade diária. Uma das que eu mais gostava, diga-se de passagem. De galochas, um balde na mão, a vó seguia até a estrebaria. Lá, as vacas já faziam fila no potreiro, ávidas por encontrar seus bezerros. Eu, contente, imergia no prédio e torcia, por dentro, para que a noite nunca mais se acabasse.
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Dentro do galpão de madeira velha, duas gerações se encontravam na lida campeira. Entre uma dezena de gatos, e um punhado de estrelas, a Lydia ouvia todas as histórias e causos que eu poderia contar. De vez em quando, para minha alegria, ainda deixava eu experimentar e vivenciar algo único: tirar o leite. Em instantes, das pequenas mãos surgiam gotas brancas, puras, abençoadas. Do momento, surgiriam eternas lembranças.
Felizmente ainda era minha a tarefa de colocar o pasto, a mandioca e, talvez, as espigas de milho nas cocheiras. No auge dos meus três, quatro, cinco anos, também aprendi a passar a corda por entre os chifres e endireitar o animal com uma madeira roliça e comprida que ia ao lado direito do corpo, evitando assim movimentos bruscos.
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Entre as tábuas velhas e o chão batido tudo era encantador demais. Enquanto minha avó se revezada entre três, quatro vacas eu experimentava o sabor de viver na roça. Às vezes, durava apens alguns dias, ou semanas. O aprendizado, no entanto, jamais foi esquecido.
Depois de tudo pronto, baldes cheios de leite, bichanos ansiosos por gotinhas que escapavam, eu abria o portão de madeira, soltava as cordas e libertava as vacas para viver no campo. Seguiam, uma a uma para o campo verde, extenso, cheio de trilhos marcados pela carroça. Era a despedida de mais um dia...
Hoje, sinto saudades da Negrita, da Mimosa e de tantas outras. Sinto saudades do velho galpão e da vida de criança. Mas também sinto alegria. Só sente saudade quem já viveu bons momentos nessa vida.
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