Abaixo, texto escrito por mim em 2010, quando Ringo, Pastor Alemão que vi crescer ao meu lado na casa da minha avó paterna, começava a dar seus últimos suspiros. Mesmo que velho, o tema nunca será.
Partidas são doloridas. Mesmo que possa soar ritmado, o sentimento não é. Provoca reações diversas, soluça o coração, convulsiona o certo. Mesmo que a despedida (quando houver) seja para um lugar melhor, a saudade anunciada não perdoa. Por mais necessário que se justifique o ir, é o ficar que ainda clama por um abraço. Na viagem, ficam as lembranças. Lágrimas e suspiros permanecem na estação. Mas é a promessa de sorrisos ainda mais abertos que encorajam, dão forças para continuar no trem, sem pensar em pular. Outra vez.
Tranquiliza saber que a partida pode ter volta. Agora, o que fazer quando ela está próxima e sabemos não ser possível o retorno? A alma adoece. E quanto mais demora, apesar do anúncio confirmado, pior se torna. Lentamente nos deixa. Abandona o lar, as amizades, a existência. É cruel. Tanto para quem parte quanto para quem assiste. Cada hora parece uma eternidade. Os braços cansam de tanto abraçar. Os filmes gastam de tanto rodar. Os baús e os armários se reviram na busca pela melhor história, pela memória escondida que não se pretende apagar. O desespero se alinha e clama, a cada hora, por mais um dia.
Mais uma parte de minha infância está prestes a ir embora. Anos de afagos, latidos e corridas pelo campo podem seguir adiante a qualquer instante. Não vai avisar, muito menos voltar. Seguirá para sempre, para a tal de eternidade. Esta, traiçoeira, deixa rios de lágrimas e algumas histórias a contar. A presença, a companhia, a amizade física, no entanto, deixarão de existir. Enquanto o corpo se entrega procuro ignorar a despedida. Viver ainda o que há para viver e incluir a dor na lista dos esquecimentos diários pode ser uma válvula de escape. Inútil, mas, de alguma forma, possível. Porque depois, mais tarde, quando a corrida não acontecer e os latidos não se propagarem pela estrada, o sorriso vai partir e o brilho das lágrimas vai chegar. Sem pressa de viajar.
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