De quando em quando, as malditas perambulavam entre os colegas. As meninas deviam listar, do primeiro ao último, o menino mais lindo até o mais feio. E eles tinham a mesma missão. De dezessete, quinze ou até mais gurias, quem sempre ficava entre as últimas? Eu, Heloísa Letícia.
Queria fugir, matar quem havia inventado aquilo, queimar, estraçalhar em mil pedaços todas as folhas de caderno. Mas não dava. Durante toda a manhã era preciso engolir a seco. Malditos! O sofrimento, a dor ainda se prolongava durante a tarde e a noite. Chegava em casa triste, chorava, me olhava no espelho tentando entender, encontrava defeitos que não existiam, notava os que existiam. Nada consolava.
Para piorar tudo, ainda vinha a mãe dizer que eu não era feia, que eu era linda. Mas aí, amor materno deixa achar filho horrível, com cara de E.T? É difícil.
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E o ritual maquiavélico continuava dia após dia. Apelidos, risadinhas, deboches. Assim, vários episódios se arquivaram na memória. Então, nunca esqueci:
*quando uma amiga decidiu mostrar, durante a aula, o vídeo dos 15 anos: TODOS riram quando apareci na fita (ainda não existia DVD). Minha gordurinhas, e talvez a roupa, foram o motivo para tanto;
* quando eu subia as escadas do colégio, um colega descia, e fazia menção de susto: "cruzes, que coisa bem feia";
* quando descobri que três "melhores amigas" havia me apelidado de "bolota";
* quando um menino passou uma festa toda me "cantando" e só depois percebi que ria da minha cara";
* e por aí vai.
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Já vi muita gente falar no tal bullying. Não sei se é meu caso, mas dessas situações desagradáveis vividas no Ernesto Alves, muitas marcas ficaram. Minha auto-estima até hoje sente os reflexos. Aos 14 anos entrei numa depressão profunda. as espinhas e os quilos a mais foram testemunha. Me achava a mais horrível de todas as pessoas.
Não tinha coragem de encarar qualquer pessoa, ir às festas de 15 anos, sair para tomar um simples sorvete, contar que gostava de algum garoto. Tudo isso ainda me acompanhou por longos anos (para ser sincera, ainda acompanha). Um pouco da insegurança que carrego hoje pode ser fruto disso. (Desconfio que sim.).
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Diante da feiura proclamada, resolvi ser bonita por dentro. Me esforcei ao máximo. Na escola, confesso, tinha muitos amigos, ria bastante e tentava ajudar a todos. Sentia pena daqueles que eram vítimas do mesmo problema, e me solidarizava. Tentava, com todas as forças, ser legal.
Aos 16 anos entrei num grupo de reeducação alimentar e finalmente perdi os indesejados quilos. Mais tarde, já na universidade, comecei a trabalhar. De posse dos primeiros "trocos", comecei a comprar, aos poucos, roupas, perfumes, cremes. A independência permitia que eu me cuidasse mais.
Depois, ainda realizei terapia, sendo um dos assuntos principais a recuperação do amor próprio. Era preciso, mais do que nunca, mudar o cenário de sofredora, cheia de lembranças ruins daqueles anos de estudante. Hoje, continuo na luta diária para não cair em novas armadilhas.
A diferença daqueles anos, no entanto, é que aprendi a gostar de mim. Faço academia, dança, compro roupas, saio à noite, tiro fotos - e gosto delas. Eliminei boa parte da vergonha. E, sempre ao me olhar no espelho, procuro achar toda a beleza que há, assim como existe em cada ser. Mantenho o foco, a força e a fé naquela máxima: "se eu não me amar, quem vai?".
A vida segue. Um trauma para ser superado de cada vez.
Ensaio fotográfico realizado em janeiro é parte da nova Heloísa
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Feliz por você Helo :D
ResponderExcluirAos poucos a vida valoriza quem tem valor de verdade. Grande abraço
Erick S. Rodrigues
Oi, Erick! Que bom ver um comentário seu. Muito obrigada. Fico feliz!! Abração. :)
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