É incrível a capacidade que o dias de chuva têm de aguçar o paladar. O meu fica babando (literalmente) por bolos, bolinhos, massas e tudo o mais delicioso e calórico que possa existir. Deve haver um acordo celestial entre casas de chá, padarias e avós confeiteiras com São Pedro. Só pode.
Toda vez que abria a geladeira lá em casa, nos últimos dias, dava de cara com uma cenoura. Passava o domingo, voltava o outro domingo e ela lá, imóvel. Dia desses ainda tive a decência de lavá-la e conferir se não estava doente. Apesar de alguns escurinhos no entorno, adormeci a pobre em um saco plástico. E lá ela ficou, à mercê de toda indiferença possível.
Na terça, quando os primeiros pingos de chuva caíram lembrei dela. Foi o primeiro passo para o primeiro bolo de cenoura da minha vida. (Lágrimas). O esquecimento do alimento, mais o brilho daquela noita acolhedora e fria deram forma a tudo o que era necessário para mastigar o tempo.
Por incrível que pareça, talvez milagre do tiozinho que mudava os móveis de lugar no céu, o bolo ficou delicioso! Unanimidade entre os que provaram. Motivo de choque para a Heloísa aqui, um zero à esquerda na cozinha.
***
Quando passava dias e mais dias na casa dos avós paternos, em Rincão da Serra, Vera Cruz, minha felicidade se resumia nas maravilhas preparadas pela dona Lydia. Do almoço ao jantar tudo era esplêndido, maravilhoso. O sonho de toda e qualquer (gordinha) criança.
Analisando tudo isso hoje, percebo que naquele tempo eu era feliz mesmo, de verdade. Devorava tudo sem medo. Não havia preocupação com dietas, com o número do manequim, com a compensação na academia, com barriguinha. Comer era realmente um grande prazer.
Agora, contudo, tudo o que me resta são buscas incansáveis por receitas fáceis para preparar os raros e próprios bolos. E assim vou levando, vivendo entre brigas constantes com a balança e a saudade imensa da infância.
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